AFETOTERAPIA Eu tive a sorte de nascer de pais que foram muito afetivos. Minha mãe ainda vive e me encanta e encanta quem a conhece com sua leveza de alma. Ela sempre foi e é uma mulher de enorme ternura. Na minha primeira infância, até os nove ou dez anos, receber beijos de minha mãe, sentar no colo de meu pai, tentar cantar com ele enquanto tocava violão, são lembranças que me oxigenam. Abraçar e beijar meus manos e manas, ser beijado também por eles, mesmo hoje como adultos, é uma forma de comunicação que vem da alma. Quando jovem, poder trocar afetos carinhosos com meus amigos na faculdade, e, ainda hoje, apesar de “maduros” somos muito afetivos quando nos encontramos ou estamos juntos, mesmo cercados por filhos, sobrinhos e netos. Parece que minha geração juvenil há quarenta anos foi mais afetiva nas relações mútuas e próximas que a atual. Manos ou amigos, quando nos encontramos, abraços são fartos e calorosos. É algo acima de tudo de alma. Essa afetividade gera uma emoção saudável e recriadora de energia e vibração que dinheiro nenhum paga. Em psicoterapia de grupo, valorizo muito as técnicas do abraço e elas fazem “milagres” para os pacientes. O fundador do abraço livre - Free Hugs - Juan Mann sentia-se privado do contato afetivo, e para superar sua carência e evitar ficar doente afetivamente, se ofereceu na rua para abraçar as pessoas. O “free hugs” tem se tornado uma terapia que cresce sempre mais em muitos países e adquire novas versões. A solidão entre adultos americanos aumentou 16% na última década e sempre mais pessoas vivem sozinhas. Pessoas que são chefes de equipes ou de recursos humanos têm o dever de desenvolver em seus espaços a harmonização afetiva e se possível à potencialidade que vem da mesma, oxigenando positivamente as relações e fazendo-as mais leves e saudáveis. Hoje se constata cientificamente que após a satisfação das necessidades biofísicas supridas pelo alimento, água e o descanso, a próxima a ser satisfeita é a afetividade. As três anteriores, por mais completas que sejam, tornam-se incompletas com a ausência da afetividade. Temos fome de pele. E ela, a pele, nosso mais extenso órgão corporal, tem necessidade de constante contato. Isso se dá também em grande parte no reino animal. Há casais que estão apenas juntos, mas sem compartilhar afetividade. Há muita atividade sexual sem afeto e isso gera alguma disfunção emocional em certo grau. O afeto passa inclusive por ritos religiosos, como o abraço da paz na missa, a dança em muitos centros de espiritualidade de matriz africana, indígena ou asiática. A necessidade da Afetoterapia tem chamado atenção de diversas organizações em saúde e correntes espirituais no mundo atual. A fome de relação - o ‘alter’ do filósofo Levinás -, encontro, amizade e carinho é tão terrível como a fome no estômago, a sede e o cansaço físico. A importância de vínculos afetivos ativos permitem às pessoas um equilíbrio e melhor saúde emocional. Atrás de todo ser agressivo, indiferente a dor humana, sem compaixão ou “ácido”, há um vazio de afeto. Pessoas que não permitem uma vida feita também com flexibilidade, muitas vezes demais exigentes consigo mesmas e com os outros, podem esconder um “grito” por afeto. A ausência do afeto acaba sendo compensada por outras buscas ou ganhos, e dentre elas as obsessões são as mais visíveis. Tais pessoas podem adoecer de alexitimia. Jesus pediu e viveu a dimensão da amizade - Evangelho de João 13, 25 e 15,15; - O Papa Francisco tem pedido o desenvolvimento da Afetoterapia especialmente para pessoas que se encontram em certa orfandade. A cura da alma não passa pelo bisturi e nem por uma transfusão de sangue, mas por uma relação feita de amizade, carinho e saudável cumplicidade entre casais, pais e filhos, e, amigos. No final de nossas vidas sabe-se que o que valerá ser saboreado e lembrado são as verdadeiras amizades. Pesquisas em leitos de agonizantes em diversos países constataram que as pessoas, se pudessem voltar no tempo, dariam mais tempo para a amizade e o amor humano. As rápidas transformações econômicas, na carona do progresso técnico e científico, geraram um processo de massificação na atualidade que se visualiza na expansão do EU e num doentio individualismo. Investir na Afetoterapia é investir num melhor e maior ser humano. O afeto é o oxigênio da vida. Invistamos mais nele e menos nas diversas toxinas e sombras, que crescem a passos largos nos dias atuais e ampliam o movimento da negação do outro. Cyzo Assis Lima,fpm Padre e Psicanalista Clínico

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